A proposta dos vinte e seis anos
Domingo, três e quinze da tarde, aquela conversa que se estica depois do almoço. O pai colocou a primeira dobradeira num galpão alugado há trinta e um anos; hoje a fábrica de esquadrias de alumínio emprega cento e noventa pessoas em Villa Mercedes e ele ainda assina cada compra grande.
O filho mais velho tem vinte e seis. Formou-se há catorze meses e trabalha na empresa desde que terminou o ensino médio: primeiro no depósito, depois nas compras, agora numa mesa colada à produção, sem cargo definido e com acesso a tudo.
Ele tem uma proposta. Uma multinacional de bens de consumo, fábrica em Córdoba, dezoito meses rodando por três áreas e depois se vê. Paga menos do que ele ganha hoje.
O pai escuta até o fim e não diz que não. Diz três coisas, e as três são boas:
—Aqui você vai aprender mais rápido, porque aqui você pega em tudo. Lá você vai ser um número num organograma.
—Aqui já te conhecem. Lá você começa do zero e perde dois anos.
E a terceira, que é a que encerra a conversa:
—Isto um dia vai ser seu. Para que ir aprender a empresa dos outros?
O filho fica. Ninguém tomou uma decisão ruim naquela tarde: o pai disse o que diria qualquer um que construiu alguma coisa e quer passá-la inteira, e o filho escolheu ficar perto. A carta acaba numa gaveta da mesa do pai, que é onde acabam as coisas que a gente não quer jogar fora.
(A cena é uma reconstrução composta. Daqui em diante, tudo o que leva número está medido e tem fonte.)
As fontes deste artigo foram lidas na versão disponível em agosto de 2026.
Os três fatos que o pai diz são verdadeiros: o filho vai pegar em tudo, o conhecem, e a empresa vai ser dele. O que não resistiu à medição não é nenhum dos três: é a conclusão que sai do terceiro —se isto vai ser seu, não há nada para aprender na empresa dos outros—, e é a única parte daquela conversa que ninguém discutiu.
Duas mil e quatrocentas sucessões, separadas por um único dado
A Parte 1 desta série terminou com uma medição sobre mais de cinco mil transferências de CEO: a rentabilidade operacional sobre os ativos cai pelo menos quatro pontos entre os anos anteriores e os posteriores. A média dessa amostra era de seis e meio por ano para cada cem colocados em máquinas, estoque e galpões, então quatro pontos sobre essa média deixam dois e meio. Essa é a escala do custo: de que tamanho é o buraco. Quem o produz é outra medição, e é a que apareceu em 2025. A conta da Parte 1 tem vinte anos e ninguém a desmentiu; o que apareceu em 2025 foi a localização do corte.
Irena Kustec, Charlotte Ostergaard e Amir Sasson entraram pelos registros administrativos do instituto de estatística da Noruega, que não são uma pesquisa com quem quis responder: são o registro de todos. Ali está a população inteira de empresas de controle familiar do país, quase toda de capital fechado —parecem-se muito mais com a sua do que as que aparecem nos papers—, e ali estão cerca de duas mil e quatrocentas sucessões de CEO em dez anos. Com isso fizeram o corte que a literatura não tinha feito: separaram os sucessores conforme de onde vinham ao assumir, de dentro da empresa ou de fora, e o baixo desempenho ficou inteiro de um lado.
De um lado estão os recrutados de dentro —os que já trabalhavam na empresa quando assumiram—, cerca de cinco em cada dez sucessões: assumem aos trinta e oito, sete em cada dez são filhos do CEO que está saindo, e pelo menos quarenta e cinco em cada cem não registram um único emprego fora da empresa em toda a carreira.
Do outro estão os que saíram e voltaram: saem aos vinte e seis e voltam aos trinta e seis. São duas em cada dez sucessões e rendem no mesmo nível de um CEO profissional.
As três em cada dez restantes são CEOs profissionais: a régua contra a qual se medem os outros dois.
Fica a objeção óbvia, e ela é boa: numa família há dois ou três candidatos e o melhor pode não estar ali. Os autores foram atrás dela. Compararam filhos que saíram contra filhos que não saíram, e depois apertaram ainda mais o universo: primogênitos contra primogênitos. Aí os dois grupos ocupam o mesmo lugar na família e têm a mesma chance de ser o escolhido por padrão; a única coisa que os separa é ter saído. O padrão se manteve.
Os três perfis, e de que lado cai cada um:
Por que este artigo se apoia num documento de trabalho, e o que fica de pé se o documento mudar. O trabalho que sustenta metade deste artigo saiu em 2025 na série de documentos de trabalho do European Corporate Governance Institute. Não passou por revisão por pares: é um rascunho posto à disposição para que o critiquem, e pode mudar. De fato já mudou uma vez —circula um rascunho de conferência anterior, com outros números e com resultados que a versão de 2025 não traz—, e este artigo usa exclusivamente a versão 1046/2025. Esta casa o usa mesmo assim, por duas razões que convém dizer em voz alta. A primeira é que é o único trabalho disponível que separa os sucessores familiares por experiência externa em vez de tratá-los como um único grupo, que é exatamente o que vinte anos de literatura vinham fazendo. A segunda é que o resto da evidência deste artigo está publicado e revisado, e aponta na mesma direção por outro ângulo. Se amanhã o achado norueguês caísse inteiro, ficaria de pé o que diz a próxima seção: que as empresas familiares que escolhem o seu chefe com uma regra automática medem pior do que as que escolhem com critérios. O conselho deste artigo —mandá-lo para fora, escrever os critérios— não muda de sinal com nenhum dos dois resultados. O que mudaria é quanta confiança ele merece.
Contra o que se calibra um filho que nunca saiu
Um corte estatístico não explica nada sozinho. O que torna este útil é que o mecanismo se reconhece sem planilha, em qualquer empresa, inclusive na sua.
Uma pessoa que trabalhou em três empresas sabe três coisas que não se aprendem dentro de uma só. Sabe que a maneira como aqui se fecha o mês é uma maneira e não a maneira. Sabe o que é ser medido por uma régua que não negociou. E sabe quanto vale o seu trabalho num mercado onde ninguém conhece o pai dele. O herdeiro que nunca saiu não tem nenhuma das três, e não por falta de capacidade: porque nunca teve ocasião.
Falta a outra metade, que é a que quase nunca se escreve e é a que cabe a você. A sua gente também não consegue calibrá-lo. Ninguém naquela empresa jamais o avaliou sem saber de quem ele é filho: todos os retornos que ele recebeu em dez anos vieram de pessoas que se reportam a você. O resultado não é que o tenham elogiado demais. É que o dado não existe, nem para ele nem para ninguém, e no dia em que assume não há uma única avaliação limpa em toda a carreira dele.
Convém então nomear o problema com precisão, porque a palavra que se usa sempre —“profissionalizar”— aponta para o sobrenome e o que está medido aponta para outro lugar. O trabalho norueguês não separa família de não família: separa ter trabalhado fora de não ter trabalhado. Esse critério não pergunta o sobrenome, e o gerente de carreira que entrou aos vinte e três e nunca saiu tem a mesma falta de régua que o filho do dono.
Esta casa chama isso de monocultura: a empresa onde todos os que podem chegar ao topo se formaram dentro. Até onde vai o respaldo: o que está medido é o corte entre os sucessores da família; que a monocultura pese igual num gerente sem o sobrenome é critério desta casa, não um dado. A palavra nomeia a empresa e não uma pessoa, e é por isso que ela serve.
Se o problema fosse o sobrenome, não haveria como consertar. Como é o percurso, há.
O sobrenome não afunda a média
Um achado de um único país se sustenta melhor quando algo medido em outro lugar aponta para o mesmo ponto. Isso existe, está publicado e revisado por pares, e vem da maior pesquisa de práticas de gestão que existe, que pontua cada empresa em dezoito práticas concretas: como define metas, como mede, o que faz com quem rende mal. Os dados são de meados dos anos dois mil, a mesma idade da medição dinamarquesa da Parte 1.
Duas advertências antes dos números. O zero é a empresa média da amostra, e um ponto inteiro dessa escala é a distância típica entre uma empresa do montão e uma que se nota melhor gerida. E a escala mede práticas, não dinheiro: este artigo não tem com o que converter centésimos em rentabilidade, e não vai inventar.
Sobre setecentas e trinta e duas empresas, a escala ordena três situações que se encaixam uma na outra: cada uma é a anterior mais um requisito.
A primeira: as empresas cujo maior acionista é uma família caem pouco acima do zero, catorze centésimos, com uma margem de erro que não permite afirmar muito mais do que isto: a propriedade familiar não está do lado ruim da tabela.
A segunda: quando além disso o CEO é da família, a marca quase não se move —cai um centésimo— e segue acima da média. Colocar um familiar no cargo, por si só, não piora a gestão medida. Isso não contradiz nada do anterior: o trabalho norueguês também não diz que o familiar rende pior. Diz que rende pior quem nunca saiu.
E a terceira: quando esse CEO chegou ao cargo por ser o filho mais velho, a marca cai mais quarenta e um centésimos e termina vinte e oito centésimos abaixo da média. Dos três movimentos, é o único medido com precisão alta. A palavra técnica para essa regra é primogenitura.
As três são a mesma família, dona da mesma empresa, e a única coisa que muda é com que regra se escolhe quem manda. São associações, não prova de causa. O que a escala ordena de pior para melhor não são famílias: são maneiras de escolher.
Falta o dado que tira essa regra do terreno do destino: nem todos os países escolhem igual. Entre as empresas francesas e britânicas medidas, cerca de uma em cada sete usa a regra do filho mais velho; entre as alemãs e as norte-americanas, três em cada cem. Algo que varia assim entre países ricos e vizinhos não é uma lei da natureza: é um costume. A foto da região vem mais adiante e aponta para o mesmo lugar.
As três situações, postas na mesma escala:
Nove por cento menos de horas
Há mais uma coisa que distingue esse cargo, e ela aparece onde ninguém procura: a agenda. Uma equipe levantou hora a hora os diários de mais de mil CEOs da indústria de seis países. Nessa medição —que compara desempenho, não práticas— as empresas familiares rendem abaixo das não familiares. Os CEOs que são da família trabalham nove por cento menos horas que os profissionais, controlando por características do executivo e da empresa, e essa diferença responde por cerca de dezoito por cento dessa distância de desempenho. É a mesma medição com que esta casa trabalhou o tempo do número um. Não a empilhe com a anterior: aquela pontua práticas e esta compara desempenho. São réguas diferentes.
Nem o estudo nem esta casa leem esses nove por cento como falta de compromisso: é um dado de desenho do cargo. O dono-executivo tem além disso uma família dentro da empresa, um patrimônio para administrar e muitas vezes um pai no conselho com opinião formada. O cargo foi desenhado para alguém que vai colocar todas as horas, e é ocupado por alguém que estruturalmente não pode.
Três dados, e nenhum é sobre o sobrenome:
Nenhum dos três mede de quem é a empresa. Os três medem como chegou ao cargo a pessoa que a dirige.
A sucessão é um projeto de capital sem dossiê
Num investimento grande, entre a ideia aparecer e o cheque ser assinado há um trabalho de definição: estuda-se o escopo, comparam-se alternativas, estimam-se os custos com uma margem declarada e só então o comitê decide. Em projetos de capital isso tem nome —front-end loading— e pulá-lo é a maneira mais cara de começar. A sucessão é uma decisão desse tamanho e a única que costuma ser resolvida sem alternativas comparadas, sem critérios escritos e sem data. Os quatro passos que seguem são o dossiê que falta.
Primeiro, a data, e que não seja a saúde de ninguém a fixá-la. A primeira coisa a escrever não é o nome: é o ano. Uma data provisória, revisável, por escrito e conhecida por quem decide. Sem data não há processo, há expectativa, e a expectativa se administra sozinha e mal.
Segundo, a experiência externa, com o seu piso. O perfil dos que deram certo é de dez anos fora. Esta casa não propõe dez: propõe um piso praticável de dois a cinco anos em outra empresa, com um chefe que não conheça a família e uma avaliação escrita por alguém que não deve nada a ninguém. Esse piso não está medido, é critério desta casa; o que está medido é a direção.
A objeção aparece sempre e é sensata: se sair, não volta. O risco é real e se administra como qualquer outro: data de volta e condição de volta, escritas antes de ele sair. Um filho que sai sem data é uma aposta; com data, é um plano de formação com duas assinaturas.
Terceiro, os critérios escritos, antes de olhar para qualquer candidato. Isto é contratar para o cargo mais importante da sua empresa, e o que a evidência diz sobre como se contrata bem não muda porque o candidato dorme na sua casa. O que precisa saber fazer quem ocupar o cargo, em uma lauda, antes de saber quem vai ganhar. E ao menos um candidato comparado que não leve o sobrenome: a comparação não está ali para escolher outro, está para produzir os critérios.
Quarto, o governo que sobrevive ao fundador.
4a. Quem pode dizer não a ele. É preciso alguém sem dependência econômica da família e com mandato escrito para dizer não ao sucessor. Se há conselho, é um conselheiro; se não há —e na maioria das empresas desse tamanho não há—, o requisito não é montar um do dia para a noite: é que essa pessoa exista, com o mandato por escrito, ainda que se sente três vezes por ano. É preciso um protocolo familiar: quem pode trabalhar na empresa, com que requisitos e quem o avalia. Na Argentina ele tem, desde 2015, figura legal própria, e um limite que convém conhecer antes: não pode passar por cima da legítima dos herdeiros. Isso se confere com um advogado de sucessões.
4b. O que se transfere e quando. E como o número um que vem vai colocar menos horas que um contratado, a lista de que decisões deixam de precisar da assinatura dele. A transferência vai partida: assinatura, presidência e propriedade não mudam de mãos no mesmo dia.
As quatro estações, com quem assina cada uma:
As duas portas
Fica a pergunta que este artigo deve desde o primeiro parágrafo: o que acontece se, feito tudo isso, o candidato da família não for a melhor opção. A profissionalização é apresentada ao dono como uma derrota, como entregar a empresa a um estranho. Não é o que diz a evidência: um CEO contratado, com a família na propriedade e na presidência, também é continuidade familiar. Muda quem executa, não quem é dono nem quem define o rumo.
Essa porta tem uma armadilha. Sobre mais de mil e seiscentas nomeações de CEO em empresas familiares de capital aberto no mundo todo, o fluxo dominante vai para a gestão profissional, mas acontece mais por promoção interna do que por busca fora. Esse trabalho não compara desempenho, então o que vem a seguir é conclusão desta casa: se o corte que importa é ter trabalhado fora, promover quem entrou jovem e nunca saiu não muda a escola de ninguém. É a mesma monocultura com outro sobrenome.
Do mesmo trabalho sai um dado que baixa o preço do gesto: o mercado não paga prêmio por profissionalizar nem castiga por voltar a colocar um familiar: a ação se move quase igual —e pouco— nos dois casos. Ninguém vai aplaudir o seu organograma; o que se paga é o resultado. Isso sai de um post de blog, não de um paper.
E uma foto da região, porque a esta altura a objeção é que aqui funciona diferente. Entre as cento e cinquenta e cinco maiores empresas familiares da América Latina com dados de 2014, o Chile é o país com menos CEOs da família: um em cada quatro. A explicação vem dos próprios autores e não é cultural: o Chile tem a maior capitalização de bolsa sobre produto da amostra e proíbe por norma que o presidente do conselho seja também CEO. Uma regra, não um temperamento.
Os dois caminhos, com o que cada um exige:
O que vai ser dito na mesa
Nada disso se decide sozinho. Decide-se numa mesa onde há sócios, irmãos, um contador de trinta anos de casa e, com frequência, a geração que sai sentada em frente. Ali vão aparecer quatro frases razoáveis: qualquer um de nós as diria, e de fato as dissemos. Cada uma tem uma metade verdadeira e difícil de discutir, e de cada uma a medição tira a outra metade. Nenhuma se responde com uma opinião: respondem-se com documentos de uma lauda que quase nunca existem.
| O que vai ser dito | Contra o que se choca | O que fica de pé |
|---|---|---|
| “Ele se criou aqui dentro. Conhece a empresa melhor que ninguém” | O baixo desempenho das sucessões familiares se concentra inteiramente nos que nunca trabalharam fora da empresa (Kustec e outros, 2025 — documento de trabalho) | Conhecer a empresa é um ativo. Não ter com o que compará-la é o passivo, e isso não se vê de dentro. |
| “Se eu o mandar para fora, ele não volta” | O perfil do sucessor que rende no mesmo nível de um profissional é exatamente o do que saiu aos vinte e seis e voltou aos trinta e seis (mesma fonte) | O risco de ele não voltar é real. Administra-se com data de volta e condição de volta escritas, não evitando que ele saia. |
| “O problema é a família; com um executivo profissional se resolve” | O que ficou medido não é o sobrenome, é a experiência externa; e nas familiares de capital aberto, profissionalizar acontece mais por promoção interna do que por busca fora, sem que o mercado pague prêmio pelo gesto (Barroso e outros, 2026 — post de blog) | O que é preciso comprar não é um sobrenome diferente: é uma carreira diferente. |
| “Hoje não é o momento; a gente vê isso depois” | As empresas familiares que escolhem o seu chefe por uma regra automática medem claramente pior em práticas de gestão do que as que escolhem com critérios (Bloom e Van Reenen, 2007) | Não decidir também é uma regra de escolha. É a que escolhe sozinha, e no dia em que se aplica já não há tempo de formar ninguém. |
Cada frase é a metade de um argumento. A outra metade não é dita em voz alta, e é a que decide.
Perguntas para segunda-feira
Sete perguntas, e nenhuma precisa de uma consultoria. As três primeiras você já tem, sentado onde está.
Três que você já tem, duas que estão fora da sua cabeça e duas que se fazem
- Além de você, quantos empregadores teve a pessoa que hoje está na corrida para sucedê-lo?
- Com que idade ele saiu da empresa e com que idade voltou? Se nunca saiu, não é um veredito sobre ele: é o único dos fatores medidos que ainda dá tempo de mudar.
- A última vez que alguém avaliou o desempenho dele sem saber de quem é filho, quando foi?
Estas duas têm a resposta fora da sua cabeça:
- Pergunte aos dois gerentes mais antigos o que diriam ao seu sucessor se ele não fosse seu filho. Não precisa que respondam com a verdade: basta ver quanto tempo demoram.
- Onde está escrito o que precisa saber fazer a pessoa que ocupar o seu cargo? Se a resposta for “na minha cabeça”, esse é o documento que falta e é o mais barato de todos.
E estas duas não se leem: fazem-se, e as duas cabem numa folha.
- Escreva o que acontece se amanhã você não puder vir trabalhar durante seis meses. Quem assina, quem decide, quem avisa o banco. Com nomes. Leva vinte minutos e quase ninguém fez.
- Faça a lista das três empresas onde o seu sucessor poderia trabalhar três anos sem que isso pareça uma traição. Se ficar vazia, aí há uma conversa pendente, e não é sobre ele.
Na conversa de domingo em Villa Mercedes o pai não errou nos fatos: o filho pegou em tudo, o conheceram, e a empresa vai ser dele. Errou numa única coisa, e ela nem é evidente. Aprender a empresa dos outros não era perder dois anos num negócio alheio: era conseguir a única coisa que a empresa dele não pode dar a ninguém que fique dentro, uma régua que não foi escrita pelo pai.
Se o seu sucessor tem vinte e seis, isto se resolve com uma conversa e uma passagem. Se tem trinta e quatro e já está dez anos dentro, custa mais: dois ou três anos fora quando ele já tem filhos e salário feito, ou —se isso não vai acontecer— uma avaliação externa formal, um chefe que não seja você durante um tempo e alguém com mandato para dizer não a ele. Se tem quarenta e cinco e a assinatura já foi transferida, o que resta não é formação: é governo.
Com isto a série se encerra. A Parte 1 desmontou o número que se cita há quarenta anos para anunciar que as empresas familiares estão condenadas, e mostrou que o custo real está em outro lugar. Esta mostra que esse custo tem uma única variável grande dentro, e que a variável é um percurso, não um sobrenome. A empresa familiar não está condenada pela sua forma de propriedade nem abençoada por ela: está mais bem servida por um processo do que por uma fé. A monocultura se conserta com uma decisão que se toma dez anos antes de ser necessária, e essa decisão hoje está sendo tomada por alguém, na sua empresa, sem saber que a está tomando.
Onde está escrito o que precisa saber fazer quem ocupar o seu cargo?
O que a 32sur deixa instalado é uma lauda: o que precisa saber fazer quem ocupar o seu cargo, escrita sem nenhum nome na frente e por quem vai decidir, não por você sozinho. Dela saem a data, o plano de formação de cada candidato e a comparação com alguém que não leve o sobrenome. Se essa lauda não existe, ou se a data da sucessão ainda é fixada pela saúde de alguém, vamos conversar.
Referências
- Kustec, S., Ostergaard, C. e Sasson, A., “Underperformance in Family Successions: The Role of Outside Work Experience”, ECGI Finance Working Paper 1046/2025 — a coluna deste artigo. Dados administrativos da Statistics Norway sobre a população de empresas de controle familiar norueguesas, majoritariamente de capital fechado: cerca de 2.400 sucessões de CEO numa janela de dez anos. O baixo desempenho dos sucessores familiares fica inteiramente explicado pelos recrutados dentro da empresa; os sucessores familiares com experiência de trabalho externa rendem no mesmo nível dos CEOs profissionais. Perfil do sucessor interno: assume aos 38 anos, pelo menos 45% não registram nenhuma experiência de trabalho externa e 70% são filhos do CEO que sai; são cerca de metade das sucessões da amostra. Perfil do sucessor com experiência externa: sai aos 26 e volta aos 36; são 20% das sucessões. Os CEOs profissionais são os 30% restantes. Os autores descartam a hipótese do universo pequeno de candidatos comparando filhos internos contra filhos externos e primogênitos internos contra primogênitos externos, e o padrão se mantém; também acrescentam controles pelo CEO que sai e pela sua presença no conselho, sem que o resultado desapareça. É um documento de trabalho: ainda não passou por revisão por pares. Higiene de fontes: circula também um rascunho de conferência de dezembro de 2020, anterior a esta versão, com números diferentes (2.500 sucessões, quinze anos, dois terços sem emprego externo) e com resultados adicionais sobre gerentes profissionais recrutados dentro da empresa que não aparecem no WP 1046/2025. Este artigo usa exclusivamente a versão 1046/2025 e não toma nada desse rascunho.
- Bloom, N. e Van Reenen, J., “Measuring and Explaining Management Practices Across Firms and Countries”, The Quarterly Journal of Economics, 122(4), 2007, pp. 1351-1408 — o reforço publicado e revisado por pares da tese deste artigo. Tabela V, p. 1384, coluna 5, sobre 732 empresas. Os três coeficientes são aninhados, isto é, incrementos que se acumulam e não categorias excludentes: propriedade familiar +0,138 (erro padrão 0,086); e ainda CEO da família −0,010 (0,113), um valor que a medição não distingue de zero; e ainda escolhido por primogenitura −0,410 (0,122), o único dos três medido com precisão alta. As posições sobre a escala, que são as que a Figura 2 deste artigo desenha, resultam de somar: +0,138 · +0,128 · −0,282. Nas palavras dos próprios autores, as empresas que escolhem o CEO entre todos os membros da família não estão pior geridas que as demais; as que o escolhem por primogenitura, sim. Tabela 1: a regra do filho mais velho aparece em 14% das empresas francesas e 15% das britânicas da amostra, contra 3% na Alemanha e 3% nos Estados Unidos. Higiene de fontes: o working paper do NBER que precedeu esta publicação (WP 12216, 2006) traz na mesma coluna outros valores —+0,304 · −0,152 · −0,450—; este artigo usa os da versão publicada. São associações medidas em corte transversal, não efeitos causais.
- Bandiera, O., Lemos, R., Prat, A. e Sadun, R., “Managing the Family Firm: Evidence from CEOs at Work”, The Review of Financial Studies, 31(5), 2018, pp. 1605-1653 — o dado de desenho do cargo: os CEOs da família trabalham 9% menos horas que os profissionais, e essa diferença responde por cerca de 18% da distância de desempenho entre empresas familiares e não familiares. Estudo de uso do tempo sobre 1.114 CEOs da indústria em seis países. Higiene de fontes: o resumo da versão publicada registra 9%, e é o número que este artigo usa; algumas fichas secundárias do mesmo trabalho circulam com 8%.
- Vazquez, P., Carrera, A. e Cornejo, M., “Corporate governance in the largest family firms in Latin America”, Cross Cultural & Strategic Management, 27(2), 2020 — a âncora regional: 155 empresas familiares extraídas do ranking das 500 maiores da América Latina, com dados de 2014-2015, excluídas as financeiras. O Chile é o país com menor proporção de CEOs da família entre as maiores empresas familiares levantadas —cerca de uma em cada quatro—, e os autores o atribuem a dois fatores estruturais verificáveis: a maior capitalização de bolsa sobre produto da amostra (84,1%) e a proibição normativa de que o presidente do conselho seja ao mesmo tempo CEO. A amostra são as empresas maiores da região: não descreve a empresa familiar de porte médio.
- Barroso, R., Kowalewski, O. e Luitel, P., “Nepotism or Stewardship? What CEO Successions in Family Firms Really Tell Investors”, post no blog do European Corporate Governance Institute, 30 de julho de 2026 — sobre mais de 1.600 nomeações de CEO em empresas familiares de capital aberto do mundo todo: 55% das sucessões vão de um executivo contratado a outro contratado, 36% de um familiar a um contratado e 9% de um contratado a um familiar. Os autores não encontram prêmio de mercado por profissionalizar nem castigo por voltar a nomear um familiar: os dois tipos de nomeação produzem retornos aproximadamente iguais e pequenos. Assinalam além disso que o fluxo dominante rumo à gestão profissional acontece mais por promoção interna do que por recrutamento externo. É um post de blog sobre trabalho em curso, não um paper publicado, e é citado neste artigo com essa etiqueta posta.
- Bennedsen, M., Nielsen, K. M., Pérez-González, F. e Wolfenzon, D., “Inside the Family Firm: The Role of Families in Succession Decisions and Performance”, The Quarterly Journal of Economics, 122(2), 2007, pp. 647-691 — a medição do custo com que a Parte 1 desta série se encerrou e que este artigo recupera uma única vez: 5.334 sucessões de CEO entre 1994 e 2002 em sociedades dinamarquesas de responsabilidade limitada, com o sexo do primogênito do CEO que sai como instrumento; a rentabilidade operacional sobre ativos cai pelo menos quatro pontos percentuais entre a janela anterior e a posterior à transição, sobre uma média amostral de 6,5%. A conta “de 6,5 a 2,5” que este artigo usa é aritmética sobre essa média, posta para dar escala: não é um valor posterior medido empresa por empresa.
Última verificação de todas as fontes: agosto de 2026. A referência 1 é um documento de trabalho e pode mudar; a referência 5 é um post de blog sobre trabalho em curso.