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Artigo 21 · O tempo do CEO

O formato da agenda (o seu problema não é quantas reuniões você tem: é de que formato elas são)

Segunda e última parte de "O tempo do CEO". A Parte 1 mostrou que a agenda do número um não é escrita pelas emergências: é ele quem a escreve. Fica a pergunta difícil: que formato essa agenda deveria ter? Sobre os diários de 1.114 CEOs, um algoritmo a quem ninguém disse o que procurar encontrou dois formatos puros de dirigir. Nenhum é melhor que o outro: o caro é ter o que não corresponde à empresa que se tem hoje. Os próprios autores estimam que é exatamente isso que acontece com 17% das empresas. E que nos países de renda baixa e média a coisa piora: entre as empresas que precisam do formato que ali escasseia, mais de uma em cada três fica sem ele. Os cinco botões que separam um formato do outro estão do lado de dentro do seu calendário.

Por 32sur · Setembro de 2026 · Leitura: 13 minutos · Série “O tempo do CEO”, Parte 2 de 2

Duas agendas a quarenta quilômetros

Terça-feira, 7h20 da manhã. A quarenta quilômetros de distância, dois homens começam exatamente a mesma semana de trabalho.

O primeiro dirige uma fábrica de embalagens plásticas de 240 pessoas. Às 7h35 já caminhou a linha 3, cumprimentou os doze do turno que sai e anotou no celular que a seladora velha "está fazendo um barulho estranho". A semana dele, exportada do Outlook, tem 21 reuniões: quase todas de meia hora, quase todas um a um, metade agendada com menos de vinte e quatro horas de aviso. Quatro caminhadas pelo chão de fábrica. Nenhuma reunião com mais de três pessoas. Quando lhe perguntam por quê, ele responde com uma frase que no setor dele soa como credencial:

—Eu não sou cara de reunião. Eu fico na fábrica.

O segundo dirige uma fábrica de embalagens plásticas de 260 pessoas. Às 7h20 lê o material de uma reunião que vai acontecer na quinta e que foi agendada três semanas atrás. A semana dele tem nove reuniões, todas de uma hora ou mais, todas com quatro ou mais pessoas de três ou mais áreas sentadas à mesma mesa. Em duas há gente de fora —um cliente grande, o banco— junto com gente de dentro. Ele percorre a fábrica uma vez, na quinta, quarenta minutos, com o gerente de operações ao lado.

Os dois trabalham por volta de 55 horas por semana. Mesmo setor, mesmo tamanho, mesmo país, a mesma quantidade de horas de vida entregues ao negócio.

Na maior medição de dias de CEO que existe, o formato da semana do segundo —não a pessoa: o formato— está associado a 7% mais vendas por desvio-padrão de um índice que mede o quanto uma semana se parece com cada um deles, controlando por trabalho, capital e as variáveis habituais (Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy, 128(4), 2020).

Um desvio-padrão não significa nada no calendário de ninguém, então vai a tradução, declarada como aproximação: é mais ou menos a metade do caminho entre a semana do primeiro e a do segundo. Passar de vinte e uma reuniões curtas e um a um para umas catorze, metade delas longas, planejadas e com mais de uma área sentada à mesa.

Você já escolheu qual das duas. Escolheu anos atrás, sem olhar um único dado, e nunca mais revisou.

Dois formatos da mesma semana

Em vez de classificar as semanas com categorias inventadas de antemão —o CEO operacional, o estratégico, o visionário, todo o bestiário das apresentações—, os autores entregaram a uma máquina 654 combinações de atividades, definidas por com quem foi, quantos eram, de que áreas vinham, se havia gente de fora e se estava agendada ou apareceu sozinha. É um algoritmo a quem ninguém disse o que procurar: ele não sabe nada de management. Pediram a ele dois formatos puros —e refizeram depois o exercício com três, com quatro, com onze, com vinte—, mas quais atividades entravam em cada um dos dois quem decidiu foi o algoritmo, não eles. Aos dois formatos que saíram, os autores deram nome: "manager" e "líder".

O formato "manager" tem um ar familiar para quem já caminhou um chão de fábrica: visitas à produção, reuniões um a um, fornecedores, atividades mais curtas. O formato "líder" é quase o seu negativo fotográfico: atividades longas e planejadas, com vários participantes, de várias áreas, e com gente de dentro e de fora sentada à mesma mesa. Lendo o "líder" em relação ao "manager", uma atividade tem 1,9 vez mais probabilidade de juntar o de dentro com o de fora e 1,5 vez mais de cruzar áreas; e 0,11 vez —algo mais de nove vezes menos— de ser uma visita ao chão de fábrica.

Aqui há um detalhe que muda a leitura inteira. O formato "líder" não é o do que mais anda na rua: as atividades só com gente de fora ficam em 0,58 vez, claramente menos prováveis. O que o distingue não é sair. É juntar: a reunião em que o cliente grande está sentado com o chefe de produção e com o de logística ao mesmo tempo, e em que ninguém precisa repetir depois a mesma conversa três vezes em separado.

"Manager" e "líder" (no original, manager e leader) são rótulos que os autores colaram em dois padrões estatísticos, não um ranking: descrevem o formato de uma semana, não a pessoa que o tem.

O que torna cada formato diferente Não quanto o número um trabalha: o que aparece na semana dele. ← MAIS PROVÁVEL NO FORMATO “MANAGER” MAIS PROVÁVEL NO FORMATO “LÍDER” → 0,1× 0,5× 34× Participa o C-suite 34× a maior diferença da tabela não é dequantidade de trabalho: é de quem está sentado. Comunicação e coordenação 1,9× Várias áreas (três ou mais sentadas à mesa) 1,5× Só com gente de fora 0,58× o tipo “líder” não é o que mais anda na rua: sair só com gente de fora é menos provável.O que o distingue é juntar. Produção 0,46× Fornecedores 0,32× Visita à fábrica 0,11× 1× = igualmente provável nos dois formatos Como se lê: 0,11× quer dizer algo mais de nove vezes menos provável; 34×, trinta e quatro vezes mais provável. Razões (odds ratios) da Tabela 2, p. 1342, sobre 654 combinações de atividades nos diários de 1.114 CEOs. Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy 128(4), 2020. Escala logarítmica.
Figura 1 — O que torna cada formato diferente. Não quanto o número um trabalha: o que aparece na semana dele. Razões (odds ratios) da Tabela 2, p. 1342, sobre 654 combinações de atividades nos diários de 1.114 CEOs. Valores publicados: C-suite 33,90×; comunicações 1,90×; três ou mais áreas 1,49×; só com gente de fora 0,58×; produção 0,46×; fornecedores 0,32×; visitas ao chão de fábrica 0,11×. A mesma tabela atribui 1,90× às atividades que juntam gente de dentro com gente de fora. Fonte: Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy 128(4), 2020. Os rótulos "manager" e "líder" são dos autores e não implicam hierarquia: a diferenciação estimada é horizontal.

Os cinco botões

Um segundo antes da lista, porque aqui se cruzam duas maneiras de contar a mesma coisa e convém não confundi-las. A figura acima mostra o resultado: que atividades aparecem mais em cada formato —o C-suite, a multiárea, a produção, os fornecedores, as visitas ao chão de fábrica—. O que produz esse resultado está um degrau atrás, e são cinco variáveis: as mesmas cinco com que os autores descreveram cada atividade para a máquina, e as mesmas cinco que separam a semana do primeiro homem da do segundo. As sete atividades da figura são a consequência; estas cinco variáveis são a causa, e são as únicas que você controla desde segunda-feira.

Nenhuma das cinco é de quantidade.

Duração. Quanto dura cada bloco.

Antecedência. Se foi agendado com mais de vinte e quatro horas de aviso ou apareceu sozinho.

Participantes. Um a um, ou quatro ou mais à mesma mesa.

Áreas representadas. Uma só, ou três cruzadas.

Quem está sentado. Só gente de dentro, só de fora, ou as duas juntas.

Cinco botões. Nenhum custa dinheiro, nenhum precisa de aprovação do conselho, e os cinco estão hoje do lado de dentro do seu calendário.

Os dois formatos de uma mesma semana de 55 horas Mesmo setor, mesmo tamanho, as mesmas horas. O que muda é o formato. FORMATO “MANAGER” 21 blocos · quase todos de 30 min · um a um SEG TER QUA QUI SEX 7 9 11 13 15 17 19 Borda pontilhada: agendado com menos de 24 h de aviso. Barra estreita em teal: visita à fábrica (quatro na semana). Uma só silhueta por bloco. Os vãos entre os blocos ficam inutilizáveis. FORMATO “LÍDER” 9 blocos · uma hora ou mais · 4 ou mais pessoas SEG TER QUA QUI SEX 7 9 11 13 15 17 19 Borda cheia: tudo planejado com antecedência. Tarja colorida no topo: as áreas sentadas à mesa. Silhueta cheia = gente de dentro; vazada = de fora. Menos blocos, mais massa, mais ar utilizável. As duas semanas somam as mesmas 55 horas. OS CINCO BOTÕES DURAÇÃO quanto dura cada bloco? ANTECEDÊNCIA foi agendado com mais de 24 h de aviso? PARTICIPANTES um a um, ou quatro ou mais à mesa? ÁREAS uma só, ou três cruzadas? QUEM ESTÁ SENTADO só dentro, só fora, ou os dois juntos? QUAL A SUA EMPRESA PRECISA HOJE? Esquema 32sur sobre as cinco variáveis que separam os dois comportamentos puros do estudo.
Figura 2 — Os dois formatos de uma mesma semana de 55 horas. Os dois comportamentos puros que um modelo de tópicos não supervisionado (Latent Dirichlet Allocation) preencheu sobre 654 combinações de atividades —98.347 blocos de quinze minutos, 78% do tempo interativo— dentro dos diários de 1.114 CEOs. O número de comportamentos, dois, foi fixado pelos autores, que o contrastaram com modelos de três a vinte. Fonte: Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy 128(4), 2020, Tabela 2. Os rótulos "manager" e "líder" são dos autores e não implicam hierarquia: a diferenciação estimada é horizontal.

De onde sai isto. Os diários são de 1.114 CEOs da indústria de seis países, levantados com uma ligação por dia durante uma semana inteira: 42.233 atividades anotadas em blocos de quinze minutos. O termo de comparação é Mintzberg, que em 1973 observou cinco executivos e por quarenta e quatro anos seguiu sendo o maior registro direto da agenda de um número um. Duas advertências. Primeira: o número de formatos puros não é descoberto pelo algoritmo, é fixado pelo pesquisador; os autores escolheram dois porque entregam um índice de uma única dimensão, fácil de ler, e mostraram que o retrato se sustenta com modelos de três a vinte. Segunda: os dois formatos não são caixas, são os extremos de uma reta que nenhum CEO real ocupa —a cada um corresponde um número entre 0 e 1— e quase todo mundo vive no meio. Quando este artigo diz "o formato errado", leia-se "longe demais, sobre essa reta, de onde a sua empresa está".

Matar as reuniões: o conselho que não sobrevive aos diários

O conselho de manual —matar as reuniões, o calendário limpo como prova de foco— tem aqui uma versão local mais nobre e bem mais perigosa, porque vem com credencial moral embutida: eu não sou cara de reunião, eu fico na fábrica.

Os diários dizem outra coisa. Entre os CEOs da amostra, o quarto que menos tempo passa em reuniões dedica a elas pouco mais de 40% do seu tempo; o quarto que mais, 65%. Ou seja: até o CEO que menos se reúne passa mais de quatro de cada dez horas em reuniões. Reunir-se não é um desvio do trabalho do número um: é o trabalho do número um. Esses dois números medem quanto, não como, e por isso não dizem nada sobre o resultado. E o formato associado a mais vendas não é o que tem menos reuniões: é o que tem menos reuniões, mais longas, planejadas e com mais áreas dentro.

Horizontal, não vertical

Os autores não se contentaram com a correlação: montaram um modelo de alocação entre CEOs e empresas e o estimaram com os dados —um modelo que separa o efeito do CEO do efeito da empresa que o escolheu—. O resultado torna todo o trabalho honesto: não há um tipo superior. A maioria das empresas dirigidas por "managers" é tão produtiva quanto as dirigidas por "líderes". O dano não está em ser uma coisa ou outra: está em ser a errada para a empresa que lhe coube. Quem leu Competir em turbulência reconhece a estrutura: não há método bom, há método que corresponde ao terreno. Aqui é o mesmo, aplicado aos sete dias de uma pessoa.

E esse dano tem tamanho: segundo a estimativa estrutural do próprio estudo, algo mais de uma em cada seis empresas termina com o tipo errado de número um.

E de qual a sua precisa? A regra é curta, e o próprio estudo a deixa servida: quanto maior a empresa, quantas mais áreas precisam se coordenar para que um pedido saia completo e quantos mais interlocutores de fora pesam como sócios —um cliente grande, um banco, uma matriz, um mercado novo—, mais ela precisa do formato "líder". Ao contrário: quanto mais o negócio se ganha dentro da fábrica, com poucas áreas e poucos interlocutores, mais corresponde o "manager". E se ninguém mais divide a direção —se não há um número dois com responsabilidade gerencial real—, a empresa está pedindo ao dono os dois formatos ao mesmo tempo, que é a maneira mais comum de terminar sem nenhum.

A matriz do pareamento O problema não é o formato: é a combinação. O FORMATO QUE O SEU NÚMERO UM TEM tem um “manager” tem um “líder” O FORMATO DE QUE A EMPRESA PRECISA precisa de um “manager” precisa de um “líder” ENCAIXE as duas casas valem o mesmo DESENCAIXE o erro se paga nas duas direções DESENCAIXE Entre as empresas que precisam de umnúmero um do tipo “líder”: 35,6% ficanesta casa em países de renda baixae média, contra 5,4% nos de rendaalta — “mais de seis vezes”, naspalavras do próprio estudo. ENCAIXE as duas casas valem o mesmo uma em cada seis empresas fica aqui 17% do total, segundo a estimativa estrutural do estudo A maioria das empresas dirigidas por “managers” é tão produtiva quanto as dirigidas por “líderes”. Não há casa superior nem casa inferior: a diferenciação é horizontal. E os dois formatos não são caixas, são os extremos de uma reta que nenhum CEO real ocupa; a matriz é um esquema de leitura, não uma classificação. Estimativa estrutural do modelo de alocação entre CEOs e empresas com fricções de pareamento. Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy 128(4), 2020.
Figura 3 — A matriz do pareamento. O problema não é o formato: é a combinação. Estimativa estrutural do modelo de alocação entre CEOs e empresas com fricções de pareamento. Fonte: Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy 128(4), 2020. Os 17% são sobre o total de empresas da amostra; os 35,6% contra 5,4% são sobre o subconjunto de empresas que requerem um CEO do tipo "líder".

Sobre esses 7% de mais vendas, a precisão que quase ninguém dá: a diferença de desempenho aparece só depois de contratado o CEO —não é que os melhores CEOs fiquem com as melhores empresas— e não aparece de imediato. Leva uns três anos para se ver.

34×o quanto é mais provável que uma atividade envolva o C-suite no formato "líder" do que no "manager". Os dois formatos se distinguem menos por quanto o número um trabalha do que por quem está sentado com ele
35,6%contra 5,4% — entre as empresas que precisam de um número um do tipo "líder", a proporção que não consegue um em países de renda baixa e média, contra a dos de renda alta: "mais de seis vezes", nas palavras do próprio estudo
3 anoso tempo que a diferença de desempenho leva para se manifestar depois de contratado o CEO

Esses três anos são, para um conselho de administração ou um conselho de família, o dado mais acionável do estudo. Trocar o número um a cada dezoito meses —o reflexo mais comum quando os números não fecham— garante por desenho que nunca se veja o efeito de nenhum dos dois formatos: é tirar o bolo do forno aos dez minutos, três vezes seguidas, e concluir que o forno não funciona.

A agenda herdada

Se o erro é de pareamento, as saídas são duas e convém colocá-las na mesa antes que você faça o diagnóstico da sua própria semana. Uma: mudar o formato da semana, que começa na segunda-feira com os cinco botões. A outra: mudar quem divide a direção —um número dois com responsabilidade gerencial real e um painel que permita ao dono enxergar sem estar—.

A segunda tem um respaldo modesto, e vale dizê-lo com o seu tamanho: na versão de trabalho deste mesmo estudo (NBER Working Paper 23248, não na publicada) o índice é mais alto quando existe um COO. É uma correlação, não uma receita, mas basta para reenquadrar a discussão: na empresa média, o número dois é debatido como uma decisão de organograma —de quem é a vez, como fica o sobrinho— quando é uma decisão sobre o formato da semana do dono, disfarçada.

Com as saídas à vista, o mapa de onde aparece cada formato se lê sem que arda.

Característica da empresaO que acontece com o índice de comportamento "líder"O que se lê para a semana do número um
MaiorMais alto, e resiste aos controlesO formato que servia com 80 pessoas deixa de servir com 300, ainda que o dono seja o mesmo
Multinacional ou parte de um grupoMais alto, e resiste aos controlesInterlocutores externos que é preciso sentar junto aos internos, não em agendas separadas
Existe um COOMais alto, na versão de trabalho e como correlaçãoÉ uma decisão de desenho da semana, não um prêmio a um gerente
De propriedade e gerida por um CEO familiarMais baixo (significativo sem controles; deixa de sê-lo ao controlar por tamanho e complexidade)O formato padrão do dono-gerente é o "manager", e a empresa costuma pedir outra coisa
Brasil e Índia, contra França, Alemanha, Reino Unido e Estados UnidosSignificativamente mais baixoNão é folclore local: aparece no dado, com o Brasil como segunda amostra nacional do estudo

Onde aparece cada formato de agenda (e o que se lê para a sua semana). A queda do índice com CEO familiar é significativa olhada sozinha e deixa de sê-lo ao controlar por tamanho, multinacionalidade e pertencimento a um grupo —o mesmo acontece com a listagem em bolsa—: boa parte do "efeito família" é efeito de tamanho e de complexidade. Fonte: Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, JPE 128(4), 2020.

Uma advertência sobre o alcance antes de trazer qualquer coisa para cá. Os seis países da amostra são Brasil, França, Alemanha, Índia, Reino Unido e Estados Unidos. A Argentina, de onde escrevemos, não está; o Brasil está, e com a segunda maior amostra nacional do estudo. Para o resto da região, a aposta —que é uma aposta, não um dado— é que uma economia de renda média com empresas médias de propriedade familiar concentrada se parece mais com essa metade da amostra do que com a alemã. Transporta-se a lógica do pareamento, não os percentuais.

Feita a ressalva, vai o dado regional. A demanda estimada por direção do tipo "líder" é praticamente a mesma nos países de renda baixa e média e nos ricos —se algo, levemente maior nos pobres—. A oferta não: entre as empresas que precisam de um número um do tipo "líder", 35,6% não conseguem um nos países de renda baixa e média, contra 5,4% nos ricos. Não é que as nossas empresas precisem menos desse formato de direção; é que conseguem menos.

Da mesma equipe e sobre os mesmos diários: os CEOs familiares trabalham 9% menos horas que os profissionais, controlando por qualificações e características da firma (Bandiera, Lemos, Prat e Sadun, Review of Financial Studies, 31(5), 2018). Não é uma repreensão, é um dado de oferta de trabalho com uma consequência prática: se o número um vai colocar menos horas, o formato dessas horas importa mais, não menos.

Junte as três coisas —dono-gerente, empresa média, região— e você tem o retrato. O calendário foi montado quando a empresa tinha metade do tamanho e nenhum mercado fora; funcionou tão bem que a empresa cresceu. E ninguém o revisou, não por negligência, mas porque não há de quem seja a vez: não está no organograma, não está no orçamento, não há comitê que o audite. Isso é a agenda herdada.

Não se solta o que não se consegue ver

Suponha que a leitura dê ruim: o formato da sua semana não é o de que a sua empresa precisa hoje. A objeção chega sozinha, e é sempre a mesma frase.

—Eu delegaria. Mas aqui não tem gente.

É a mesma classe de frase que "a agenda manda em mim", que na Parte 1 não sobreviveu ao cronômetro. A evidência sugere que a trava não costuma estar na oferta de gerentes, e sim no fato de que o dono não tem como saber se o gerente está fazendo bem o trabalho. E ninguém solta o que não consegue ver.

O experimento é o mesmo que citamos quando escrevemos sobre a estrutura que fica pequena, no artigo 02, e daquela vez ficamos com a cifra de manchete. Bloom, Eifert, Mahajan, McKenzie e Roberts (Quarterly Journal of Economics, 128(1), 2013) deram consultoria de gestão de graça a fábricas têxteis escolhidas ao acaso. O que deixamos de fora é o que importa hoje: os donos acabaram delegando decisões de contratação, investimento e salários porque a informação melhor lhes permitiu monitorar. Não mudou a gente disponível no mercado de trabalho de Maharashtra. Mudou o que o dono conseguia ver da sua mesa.

Isso converte um problema de caráter —"aqui as pessoas não se comprometem"—, insolúvel e por isso confortável, em um problema de desenho, solúvel e por isso incômodo. Não falta confiança: falta informação, e a informação se constrói com um dado, uma cadência e um formato. Nenhuma das três se monta em uma agenda picada em blocos curtos e um a um.

A sua semana é uma decisão de alocação de capital

Três movimentos. Nenhum precisa de projeto nem de orçamento.

Um: a leitura de vinte minutos. Exporte para o Excel uma única semana do seu calendário —a passada, tal como ficou— e monte uma coluna por botão: duração, aviso de mais de vinte e quatro horas, participantes, áreas distintas e quem estava sentado. Não é preciso lembrar de nada: quase tudo está no convite. Depois, três contas: que percentual das suas reuniões teve três ou mais áreas ao mesmo tempo, que percentual foi agendado com aviso, e quantas vezes houve gente de dentro e de fora na mesma sala. Quanto mais altos os três, mais perto a sua semana está do formato "líder". Não espere um número comparável com o do estudo: o índice é estimado sobre uma amostra inteira, não sobre um calendário solto. O que você precisa saber não é o seu percentil, é para que lado ela pende.

A versão longa, para quem ficar engatado: duas semanas anotadas em blocos de quinze minutos —a unidade do estudo— e preenchidas ao final de cada dia. Dá foto melhor. A de vinte minutos já decide.

O exercício de vinte minutos, passo a passo 20 MINUTOS · UMA ÚNICA SEMANA 1 EXPORTAR Uma única semana, a passada,tal como ficou. Para o Excel,a partir do calendário. Não sereconstrói de memória: quasetudo está no convite. 2 CINCO COLUNAS DURAÇÃO AVISO (>24 h: sim/não) PARTICIPANTES ÁREAS DISTINTAS DENTRO / FORA 3 CONTAR · % de reuniões com três   ou mais áreas ao mesmo tempo· % agendadas com mais de   24 h de aviso· quantas vezes houve gente   de dentro e de fora   na mesma sala 4 COMPARAR MANAGER LÍDER Quanto mais altos os três,mais perto do formato “líder”.O que você precisa saber nãoé o seu percentil: é para quelado ela pende. UMA LINHA PREENCHIDA BLOCO DURAÇÃO AVISO >24 H PARTICIPANTES ÁREAS DENTRO / FORA LEITURA Qui 10h — Revisãodo pedido grande 90 min Sim (12 dias) 5 3 (comercial, produção,logística) Dentro + fora(o cliente) ✓ pende para o lado“líder” Ter 8h30 — Com o chefe de fábrica 30 min Não (mesmo dia) 2 1 Só dentro pende para o lado“manager” Nenhuma das duas linhas está errada sozinha. O que se lê é do que a semana inteira é feita. Exercício da 32sur montado sobre as cinco variáveis que separam os dois comportamentos puros do estudo. Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy 128(4), 2020.
Figura 4 — O exercício de vinte minutos, passo a passo. Exercício da 32sur montado sobre as cinco variáveis que separam os dois comportamentos puros do estudo. A unidade de medição original é o bloco de quinze minutos anotado com uma ligação por dia; esta versão curta usa o convite do calendário tal como ficou e não produz um número comparável com o índice do estudo, que é estimado sobre uma amostra inteira. Fonte das cinco variáveis: Bandiera, Hansen, Prat e Sadun, Journal of Political Economy 128(4), 2020.

Dois: a pergunta de pareamento. Não "a minha agenda é boa?", que é uma pergunta sem resposta, e sim "que tipo de empresa eu sou hoje?": quantas pessoas, quantas áreas precisam se coordenar para que um pedido saia completo, quantos mercados, se existe ou não um número dois com responsabilidade gerencial real. E só depois: o formato da minha semana se parece com o de que essa empresa precisa? A de hoje, não a de cinco anos atrás.

Três: as três colunas. Cada bloco cai em uma. (a) O que só o número um pode fazer, e a prova é simples: se outro faz, muda o resultado, não só a velocidade. (b) O que se delega com painel: delegar sem o dado que permite monitorar não é delegar, é abandonar, e três meses depois volta mais caro. (c) O que não deveria existir: essa coluna convém olhar por último, quando já não dá para negociá-la consigo mesmo.

A semana do número um é o único ativo da empresa que é alocado toda semana sem que ninguém peça uma análise de retorno.

Perguntas para segunda-feira

As cinco primeiras se respondem de memória, agora, sem abrir nada.

Cinco de memória, duas com o calendário aberto

  1. Das decisões que passaram pela sua mesa na semana passada, quais passaram por serem importantes e quais porque ninguém mais tem o dado?
  2. Quantas reuniões da semana passada juntaram três ou mais áreas à mesma mesa —e quantas foram o terceiro um a um do mês com a mesma pessoa?
  3. Que tipo de empresa é a sua hoje —áreas que precisam se coordenar para que um pedido saia completo, mercados, sócios externos— e qual era quando você montou, sem perceber, o calendário que continua usando?
  4. Se o formato da sua semana e o da sua empresa não coincidem: quais são os três blocos que você muda esta semana, e quem ocupa o lugar que você deixa livre?
  5. Quando foi a última vez que alguém —o conselho de administração, o conselho de família, você mesmo— avaliou por escrito o formato da agenda do número um contra o que a empresa precisa hoje?

E a versão longa, para quem se animar:

  1. Exporte a semana passada e marque-a com os cinco botões. Olhando o resultado, para que lado a sua semana pende?
  2. Para cada decisão que sobe até a sua mesa só porque ninguém mais tem o dado: que informação teria de existir, com que frequência e nas mãos de quem, para que você pudesse soltá-la no mês que vem?

Volte aos dois homens da terça-feira às 7h20. Com a regra de agora há pouco —tamanho, áreas que precisam se coordenar, interlocutores de fora, número dois—, e como leitura e não como veredicto, o que provavelmente está desencaixado é o primeiro: 240 pessoas, várias áreas que precisam se coordenar para que um pedido saia completo, um cliente grande que já pesa como sócio, nenhum número dois, e uma semana inteira montada em blocos de meia hora e um a um. A empresa dele deixou de ser a que ele dirigia quando montou aquele calendário; a semana não ficou sabendo. O segundo tampouco está "certo" por ser o segundo: estaria igualmente desencaixado se o seu negócio ainda se ganhasse na linha 3. O erro se paga nas duas direções e se corrige com os mesmos cinco botões.

Fica a seladora velha. Se o dono deixar de caminhar a linha às 7h35, quem escuta o barulho estranho? A resposta não pode ser "ninguém", e também não pode ser "que ele continue caminhando a linha todos os dias". É que outra pessoa o escute e que o dado chegue à mesa do dono no mesmo dia. Isso é um painel: custa menos do que vinte e uma reuniões por semana, e é a única coisa que faz com que soltar não signifique ficar cego.

Com isso se encerra "O tempo do CEO": a Parte 1 devolveu a você a caneta da sua agenda; esta mostrou que a agenda tem formato, que o formato se mede e que o erro caro não é o formato, e sim o desencaixe. Do desencaixe se sai por duas portas e não há uma terceira: mudar o formato da semana, ou mudar quem divide a direção. Fica servida a pergunta que o estudo não responde: se o pareamento explica tanto, como se escolhe a pessoa? A resposta habitual —"eu tenho bom olho para gente"— é uma autobiografia, não um método. É disso que trata a próxima nota.

Faz mais de três anos que o seu calendário não muda e a sua empresa sim?

A 32sur trabalha as duas portas. Em noventa dias o que muda é a semana do dono: menos blocos e mais longos, planejados com duas semanas de antecedência, com as áreas que precisam decidir juntas sentadas ao mesmo tempo —e as decisões que hoje sobem até a sua mesa porque ninguém mais tem o dado, descendo com um painel atrás e um responsável à frente—. O primeiro passo é uma sessão de noventa minutos com o calendário das últimas duas semanas exportado e aberto: você sai de lá com o formato da sua semana medido, o da empresa que tem hoje, e os três blocos que muda na segunda-feira seguinte. Se faz mais de três anos que o seu calendário não muda e a sua empresa sim, vamos conversar.

Vamos conversar

Referências

  1. Bandiera, O., Hansen, S., Prat, A. e Sadun, R., "CEO Behavior and Firm Performance", Journal of Political Economy, 128(4), 2020, pp. 1325-1369 (versão prévia: NBER Working Paper 23248) — diários de 1.114 CEOs da indústria no Brasil, França, Alemanha, Índia, Reino Unido e Estados Unidos; 42.233 atividades = 225.721 blocos de quinze minutos; um modelo de tópicos não supervisionado (Latent Dirichlet Allocation) rodado sobre 654 combinações de atividades (98.347 blocos, 78% do tempo interativo) caracteriza dois comportamentos puros: o número de comportamentos é fixado pelos autores —que comparam o modelo de dois com modelos de três até vinte e escolhem dois por interpretabilidade— e o algoritmo determina que mistura de atividades define cada um. Razões da Tabela 2, p. 1342 (C-suite 33,90×, comunicações 1,90×, insiders+outsiders 1,90×, três ou mais áreas 1,49×, visitas à fábrica 0,11×, produção 0,46×, fornecedores 0,32×, só com gente de fora 0,58×); 7% mais vendas por desvio-padrão do índice; três anos até que a diferença se manifeste; correlações do índice com tamanho, multinacionalidade e pertencimento a um grupo, que sobrevivem aos controles, e com CEO familiar e listagem em bolsa, que não. Na descrição dos dados (seção II.C), 40% contra 65% do tempo dedicado a reuniões entre o quartil inferior e o superior da própria distribuição de tempo em reuniões: dispersão da amostra, não quartis do índice de comportamento. A correlação do índice com a existência de um COO não aparece na versão publicada: está no NBER Working Paper 23248, e como correlação. É a espinha dorsal deste artigo.
  2. Bandiera, O., Hansen, S., Prat, A. e Sadun, R., ibid., seção de estimação estrutural e resultados por região — diferenciação horizontal com fricções de pareamento: 17% das empresas termina com o tipo "errado" de CEO; entre as firmas que requerem um CEO do tipo "líder", 35,6% das de países de renda baixa e média fica mal alocada, contra 5,4% nos de renda alta (o próprio trabalho descreve o quociente como "mais de seis vezes"); 21,6% contra 49,5% de CEOs do tipo "líder" por região, com demanda estimada praticamente igual; a perda por má alocação equivale a 13% —mais de um oitavo— da diferença de produtividade do trabalho entre países ricos e pobres. Traz a tese do pareamento e o ângulo regional.
  3. Bandiera, O., Lemos, R., Prat, A. e Sadun, R., "Managing the Family Firm: Evidence from CEOs at Work", Review of Financial Studies, 31(5), 2018, pp. 1605-1653 — sobre os mesmos diários: os CEOs familiares trabalham 9% menos horas que os profissionais, controlando por qualificações e características da firma, e essa diferença responde por aproximadamente 18% da lacuna de desempenho entre firmas familiares e não familiares. Traz a cifra que coloca preço na agenda do dono-gerente.
  4. Bloom, N., Eifert, B., Mahajan, A., McKenzie, D. e Roberts, J., "Does Management Matter? Evidence from India", Quarterly Journal of Economics, 128(1), 2013, pp. 1-51 — experimento aleatorizado de consultoria de gestão em fábricas têxteis de Maharashtra, o cinturão têxtil de Mumbai: +17% de produtividade no primeiro ano e mais plantas abertas em três anos; o mecanismo foi que os donos delegaram decisões de contratação, investimento e salários quando a informação melhor lhes permitiu monitorar. Traz o mecanismo (não a cifra, já citada no artigo 02): delega-se quando se consegue ver.
  5. Mintzberg, H., The Nature of Managerial Work, Harper & Row, 1973 — durante quarenta e quatro anos, o maior exercício de observação direta da agenda de um número um: cinco executivos. Traz a escala da ignorância prévia e é o termo de comparação do método de diário. É tratado em detalhe na Parte 1 desta série.